A Loira e o Taxista


Marcos estava mais uma vez dirigindo seu velho táxi pelas ruas de São Paulo. Era noite calma, com uma enorme lua cheia no céu. Ele estava cansado, mas como ultimamente os tempos eram de crise, ele mais uma vez necessitava fazer corridas extras que duravam durante toda a madrugada. Agora, á meia noite, ele encontrava-se exausto e seu veículo passeava calmamente por uma rua tranquila da enorme metrópole. De-repente uma linda moça pareceu surgir bem a sua frente no meio da rua. Ele freou o carro assustado. A garota misteriosa, com um sorriso delicado, bateu de leve no vidro e disse:
- O senhor pode me levar até minha casa?

- Entra aí.- pediu Marcos. A moça entrou no carro enquanto Marcos perguntava:- Mas diga-me. O que faz andando sozinha nesse bairro perigoso a uma hora dessas?
- Eu estou caminhando pela cidade.- disse a jovem com um sorriso de puro contentamento. - Adoro São Paulo. Queria ficar sempre aqui. Queria ser livre. Não ter de voltar... pro lugar onde moro. 

- Onde você mora?

- Em um lugar horrível.- disse ela com um semblante nostálgico.- Mas todas as noites. Na data de meu aniversário, tenho a permissão para caminhar pela cidade.

Um arrepio percorreu o corpo de Marcos. Mas ele nem sequer imaginava que as excentricidades daquela corrida de táxi estavam apenas começando. Ao passar em frente a uma enorme praça, a garota misteriosa insistiu para que Marcos parasse o veículo.

- Mais moça! Esse lugar é perigoso á noite.

- Por favor. Eu só quero parar aqui por alguns instantes. Antes de ter de voltar para o lugar terrível onde moro.

Eles desceram do taxi. E ela abriu os braços rodopiando com emoção,
- Eu amo esse lugar. Essa brisa gostosa. Essa lua encantadora no céu. O lugar onde eu moro não tem nada disso. Não tem lua, não tem brisa, não tem nada de agradável.

- Mas onde é que você mora?- perguntou o taxista nervoso enquanto voltavam para o carro.
- Você não entenderia. Eu fiz coisas horríveis. Agora pago por meus erros em um lugar horrível.
Eles entraram no carro em meio a noite solitária. Agora, enquanto seguiam pela cidade, a moça pedia para ele parar em vários lugares. Era como se não quisesse terminar o passeio de táxi. Como se estivesse prolongando-o com medo do destino final.

Enquanto seguiam, Marcos começou a afeiçoar-se pela jovem. Como que em um instinto paternal. Parecia tão feliz e tão cheia de vida naquela noite. Era algo estranho. Era como se há muito tempo ela não tivesse a oportunidade de apreciar uma simples corrida de táxi. A moça misteriosa agia como uma criança diante de um presente de natal naquela fria noite que cobria a metrópole silenciosa.
- Bem. -disse ela. - Agora não me resta remédio senão voltar.- disse com o olhar cheio de dor.
A moça deu as instruções de onde ficava a sua casa. Marcos encontrava-se cada vez mais inquieto com o mistério que a loira inspirava.

- Eu nem perguntei seu nome.- disse.- É que essa noite foi tão peculiar que nem nos apresentamos. Eu me chamo Marcos.

- Meu nome é Laura. Laura Fonseca. - disse ela com ar nervoso.

- Sabe. Eu gostei de você.- disse Marcos sorrindo.- Parece tão feliz de uma forma tão estranha. Gostei do seu jeito. Nem vou cobrar a corrida.

- Chegamos.- disse ela com tristeza.

Eles encontravam-se em frente a um enorme cemitério. Os grandes portões de ferro erguiam-se exibindo uma enorme quantidade de velhos túmulos e tumbas erguendo-se em meio a escuridão silenciosa. Um calafrio percorreu o corpo do taxista.

- Você mora por aqui?- perguntou ele com o olhar amedrontado.- Aqui?

- Sim.- disse ela.- Obrigada. Essa noite foi maravilhosa.- e saiu do carro. 

- Adeus.- disse ele sentindo algo pesado no ar. Mas a moça já havia desaparecido. Nas semanas seguintes, Marcos não pode deixar de pensar na garota misteriosa. Quem era ela? Porque morava próxima aquele cemitério? Porque estava feliz de uma forma tão exagerada? Ele decidiu então voltar até o local onde havia deixado a garota. Quando caminhou até o cemitério, ele sentia algo no ar, uma sensação ruim. A porta do cemitério estava entreaberta. Ele decidiu entrar e perguntar ao caseiro do local a respeito da jovem de branco.


- Ela se chama Laura. Disse morar nas proximidades.- completou o taxista para o homemzinho que cuidava do velho cemitério.

- Não conheço não senhor.

Intrigado, Marcos pôs-se a vagar pelo cemitério. Quem seria aquela moça. Ele sentou-se em uma lápide. Já estava disposto a voltar para casa e esquecer o assunto quando decidiu dar uma olhada no túmulo em que se sentara. Nesse instante seu coração parou de terror. Seus olhos mal podiam acreditar no que viam. Seu coração batia aceleradamente. Seus olhos injetados viram a foto da loura em preto e branco presa ao lado das inscrições: Laura Fonseca, jaz em 10 de Junho de 1957. Então ele finalmente percebeu aterrorizado que a loura que encontrara era um fantasma. E que sua casa, para onde não queria voltar, era o purgatório.

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